CoworkingPOR PONTO URBANOPUBLICADO EM 11/05/2018

Você ama o que faz?

Uma das palavras mais usadas por empresários bem sucedidos no mundo de hoje é propósito. Em livros, palestras, vídeos e depoimentos, pessoas falam sobre o tema com a propriedade de quem descobriu uma fonte inesgotável de motivação. Não é para menos: em teoria, ter propósito é ser dotado de uma capacidade máxima de enxergar em uma tarefa como parte do caminho até sua missão como ser humano.

Ao mesmo tempo em que pesquisas e estudos abordam a importância de ter um motivo para viver o seu objetivo maior de vida, cresce em nós uma urgência para encontrar esse propósito, e também os questionamentos de filósofos e pensadores sobre a aderência desse mote para a sociedade. Afinal, como será possível uma sociedade em que todos amem o que fazem, se há algumas tarefas das quais ninguém gosta?

No livroPor que fazemos o que fazemos?”, Mário Sérgio Cortella aborda este assunto e pergunta: melhor do que seguir em busca de um trabalho que só nos traga prazer (delírio!), não será aprender a ver o propósito no que fazemos?

Conversamos com Luiz Francisco Jr., psicólogo, life coach e professor da FADISP, para trazer mais alguns pontos que ajudem nossos leitores e coworkers da Ponto Urbano a refletir sobre isso e trabalhar com mais serenidade.

 

Ponto Urdano: Dá mesmo pra ser apaixonado pelo trabalho 100% do tempo?

Luiz Francisco Jr.: Acredito que o perigo está exatamente nessa intensidade que chega a parecer fantasiosa ao cogitar uma paixão em 100% do tempo. Quando estamos apaixonados por alguém e há maturidade nesse sentimento também nos frustramos, nos irritamos e nos incomodamos com aquilo que esse alguém nos faz que nos desagrada. Com a organização não seria diferente. Ao contrário, torna-se mais instigante considerando que uma pessoa jurídica é resultante de ações de diversas pessoas físicas, o que implica num desafiante enamoramento coletivo e cotidiano.

 

Ponto Urdano: Então as pessoas romantizam o conceito de propósito?

Luiz Francisco Jr.: O problema do romance está na falsa expectativa nele contida, tendo em vista que a tendência é romancear uma história, pessoa ou local acreditando que serão atendidas minhas necessidades do jeito limitado que eu mentalmente desenhei para a situação. Isto é, o problema não está na satisfação das necessidades, mas na utilização de um formato único preestabelecido mentalmente com base em um histórico de vida limitado em opções e diversidade para satisfação das necessidades, que em muitos casos os outros, por desconhecerem ou por serem favoráveis ou partidários de outras formas de satisfação, acabam por não atender. É uma das características da falta de maturidade emocional: não reconhecer que existem diferentes formas de oferecer ou ministrar benefícios rumo à satisfação da necessidade, ou seja, se a necessidade é de reconhecimento, existem outras formas que não seja falar na frente de todo o grupo de trabalhadores sobre o quanto o trabalho de fulano é de alta qualidade, por exemplo.

 

Ponto Urdano: Corremos o risco de ver pessoas cada vez mais frustradas?

Luiz Francisco Jr.: Quando falamos em frustração, estamos indo na contramão da satisfação da necessidade que é o que traz motivação e prazer ao indivíduo em sua vida organizacional. E para criar um ambiente de frustração, basta oferecer qualquer coisa frente a uma necessidade que tem um escopo bem delimitado daquilo que de fato a eliminaria. Isso significa dizer que a riqueza de estímulos vivida hoje pode ser grande e diversificada, mas se aquilo não é direcionado de modo a atender uma necessidade, poderá ser absolutamente frustrante para seus receptores. Ou seja, se a equipe está precisando de descanso não adianta premiar o alcance da meta com um televisor de última geração.

Se vemos isso acontecer, a aposta mais provável é que a motivação vem se esgotando, pois quando nos referimos a esse construto, estamos falando do nível de satisfação das necessidades humanas  que foram postuladas por diversas teorias em psicologia, mas bastante difundidas por Abraham Maslow, psicólogo de abordagem humanista. Quanto mais um ambiente organizacional deixa de se preocupar e de atender as necessidades humanas com suas políticas de recompensa e reconhecimento, menor é o nível motivacional e também o interesse e o prazer relacionados à atividade que se realiza. A estrutura de trabalho por si só é naturalmente desmotivadora, considerando que um indivíduo dotado de inteligência, autonomia e criatividade, dentre tantas outras competências, precisa permanecer preso a um local e atividade por um período de 8 horas ou mais, dependendo do caso. A ideia de oferecer recompensas é exatamente para tornar prazeroso e satisfatório esse período de dedicação à organização, devendo, para isso, que as necessidades - pelo menos as mais essenciais - sejam atendidas.

 

Ponto Urbano: Como podemos nos manter motivados e felizes com a carreira?

Luiz Francisco Jr.: Da mesma forma que buscamos motivação e felicidade em qualquer outro contexto de nossa vida: encontrando elementos que nos contemplem, que nos deixem satisfeitos, considerados, pertencentes, importantes. Precisamos trabalhar em locais que nos permitam satisfazer nossas necessidades fisiológicas, não consumindo nossas horas de descanso dedicadas à refeição ou ao lazer e sono depois do expediente, que permitam satisfazer nossas necessidades de segurança, não alimentando uma atmosfera de crise e instabilidade, que permitam satisfazer nossas necessidades sociais, não incentivando a competição e a intriga entre a equipe de trabalhadores, dentre outras. O segredo talvez esteja em ter clareza de quais são minhas necessidades para que eu possa buscar na empresa fontes de satisfação ou então reconhecer que chegou o momento de estender essa busca para além de seus muros.

 

Ponto Urbano: Como encontrar um propósito de forma mais consistente com a realidade?

Luiz Francisco Jr.: Autoconhecimento é uma boa alternativa para essa essa busca, uma vez que torna-se cada vez mais difícil encontrarmos pessoas motivadas e satisfeitas, inclusive em ambientes e contextos não organizacionais possivelmente por não terem clareza sobre suas necessidades e sobre aquilo que lhes está sendo oferecido para sua própria satisfação, mas de um modo diferente do esperado. Pessoas que não têm clareza de suas necessidades dificilmente conseguem estabelecer um propósito de vida, pois estão sempre em busca de algo, já que permanecem insatisfeitas, mas que é algo difícil de mudar, já que no fundo não sabem o que genuinamente desejam. Ademais, ampliar o olhar sobre as diferentes formas de encontrar satisfação é outra boa opção para transformar a vida em algo menos amargo e sofrido, já que um olhar limítrofe estará sendo abandonado.


 

Palavra de empreendedor:

Caio Moretti, CTO na empresa Edools.

Pra mim, ser apaixonado pelo que faz é privilégio. Se você for, é muito bom. Mas deve sempre se lembrar que a situação pode mudar e que a qualidade do trabalho não pode depender disso. No caso, estou num momento onde eu sou apaixonado pelo que faço. :)

 

Bruna Maia, CEO & Fouder na empresa Agência Mente Ativa - Marketing Digital.

Eu penso que quando a pessoa é apaixonada pelo que faz e trabalha com propósito com certeza é mais feliz e tem uma vida mais tranquila e plena. Sem isso, você até pode conseguir sucesso e dinheiro sim! Mas vai viver estressado e triste por estar fazendo uma coisa que talvez não seja o que você realmente gostaria, vai lutar sempre com a frustração, se perguntando o que seria da sua vida se tivesse feito outra coisa.

 

Arthur Sebastião, freelancer.

Acho importante descobrir qual o seu propósito, muito mais para encontrar satisfação verdadeira no seu trabalho do que qualquer outra coisa. Para se sentir realizado de fato. Pra não sentir que tá desperdiçando tempo em uma parada que nem é tão importante assim de fato pra você, que você só tá fazendo pelo dinheiro. Se der pra encontrar um trabalho alinhado com ele, ótimo! Mas a maioria das pessoas nem pensa nisso... E nem é por maldade. É só a necessidade de pagar contas que fala mais alto. De qualquer forma, em um mundo perfeito, acho que todos teriam trabalhos alinhados com o seu propósito sim.


 

Marcelo Hayashi, Chief Technology Officer (CTO) na empresa Agência esvbr.

Da minha experiência e opinião, é claro que cada pessoa tem seus gostos individuais e se puder trabalhar com isso tanto melhor, mas um empreendedor deve se apaixonar mais pelo caminho, pela vivência, e nem tanto pelo destino, pelo produto final. A experiência é o que nos faz melhores. Um produto, no final das contas, é só um produto, é só um serviço. O que faz a diferença é o que está na sua cabeça de tudo que viveu até aqui, e fatalmente você vai chegar à conclusão que em algum momento não faz mais sentido você estar ali para aquela jornada (ex. tem perfis de pessoas para criar produtos, outros para lançar, outros para fazer crescer, outros para manter)