Cresça seu negócioPOR PONTO URBANOPUBLICADO EM 08/03/2018

Regras corporativas: vamos refletir?

Seres humanos são sociais: convivemos uns com os outros o tempo todo, tentando coordenar interesses pessoais e coletivos de forma que haja um nível adequado de ordem, tranquilidade e previsibilidade de ações. Para isso, as regras existem em todas as esferas da vida, inclusive no ambiente corporativo. Nas empresas novas, percebe-se uma maior flexibilidade, mas à medida que o quadro se expande e as relações ficam mais complexas, bem como as responsabilidades de cada um, as normas de conduta começam a aparecer. Mas, junto com a mudança de paradigmas trazida pela tecnologia, e a evolução de nossa sociedade, precisa haver uma constante preocupação dos criadores de regras, para que elas não se tornem obsoletas e prejudiquem mais do que ajudem a produtividade.

Para tratar sobre o tema, conversamos com Marta Misina, diretora da Misina e Grecco, consultoria e assessoria em recursos humanos e gestão empresarial. Confira a entrevista:

 

Ponto Urbano: Das práticas mais comuns nas empresas, o que você considera ser algo já arcaico e que poderia deixar de ser feito, para melhorar o rendimento do colaborador?

Marta Missina: A supervisão muito rígida, no sentido de controle puro, poderia ser diminuída e quem sabe extinta. Esse tipo de rigidez no controle das atividades impede a comunicação franca, a criatividade e gera muitos atritos entre os líderes e os liderados. Ainda vemos empresas que adotam medidas disciplinares um tanto arcaicas, como advertências e até suspensões dos funcionários ao trabalho. Essas medidas, além do mal-estar e até constrangimento que causam, às vezes são atreladas à concessão de benefícios e outras formas de reconhecimento. Por exemplo: quem tiver sido advertido ou suspenso perde uma premiação extra da cesta básica. São medidas com pouca ou qualquer efetividade de produtividade e lealdade do funcionário. A gestão deve buscar os resultados, os quais compõem as metas empresariais – sejam mensais ou anuais – com a equipe motivada, centrada e fazendo parte do time que sabe da responsabilidade e da importância do seu trabalho, no contexto organizacional. É com as pessoas que se chega lá. Funcionário que precisa ser advertido ou suspenso para trazer resultado há qualquer coisa de estranho, ou com ele ou com a liderança”.

Ponto Urbano: O uso de celulares pessoais e o acesso cada vez mais ilimitado às redes sociais através dele é uma realidade. Proibir adianta? Como a empresa pode garantir e incentivar a produtividade sem precisar apelar para essas restrições?

Marta Missina: É um tema polêmico, que deve ser tratado de frente pelas empresas, uma vez que a proibição não tem trazido qualquer efetividade. Os funcionários sempre dão um jeitinho de acessarem o que lhes interessa. Há, no entanto, características de atividades onde a parcimônia ao uso é necessária. Deve haver atenção para os casos, cujos profissionais no desenvolvimento do seu trabalho, devem abster-se do uso indiscriminado dessas ferramentas. Por exemplo: quando se fala de uma cadeia de processos de produção, na qual os operadores trabalham sincronicamente, fica difícil a liberação do celular nesse fluxo. Funcionários de linha frente no atendimento ao público não devem deixar o cliente esperando para dar uma olhadinha em suas mensagens. Seguranças, caixas de banco, de supermercado e assim outras infinidades de profissões. Nesse caso, é de bom tom que as empresas forneçam espaços apropriados, para que em suas horas de descanso os funcionários possam então atualizar-se de suas mensagens e das redes sociais. Para as atividades de BackOffice a proibição é inócua, visto que a ferramenta de trabalho é um computador, além do próprio celular sempre à mão. Nesses casos, o papel da liderança direta é crucial. Deve fazer um “monitoramento”, mesmo que não ostensivo, a fim de coibir os excessos, evitando que isso prejudique as rotinas do seu departamento. É sem volta e universal”.

Ponto Urbano: Com relação ao relógio de ponto e a cobrança de horário, qual é a sua opinião?

Marta Missina: O controle de ponto é uma exigência legal e não houve flexibilização na reforma trabalhista, além de ser protetivo para ambos os lados na relação de trabalho: empregador e empregado. Facilita a apuração de horas extras, evidência acidentes de trabalho e de trajeto e é guarnecedor para o funcionário e documento comprobatório em ações trabalhistas. Algumas empresas, para as atividades de BackOffice, vêm adotando o horário flexível, banco de horas e outras modalidades de controle um pouco menos engessadas. Para as áreas operacionais, que têm entre si fluxo de trabalho contínuos, o horário é fixo e pelo espírito da lei, controlado. Para os cargos ditos de confiança, tem sido eliminado o controle de ponto. Para as empresas que desejam eliminar ou ainda reduzir os referidos controles é um ponto de atenção que deve ser avaliado com muito primor”.

Ponto Urbano: Para as mulheres, a rigidez no trabalho é algo que pode pesar mais na equação emocional?

Marta Missina:Creio que a carga emocional na rigidez no trabalho pesa para ambos os gêneros. A mulher demonstra mais e mais rápido. Os homens tendem a “engolir” melhor, mas não quer dizer que também não carreguem consigo as questões emocionais. A rotina do trabalho em excesso, visto os quadros estarem mais enxutos, a necessidade de resultados rápidos, o medo da perda do emprego e outras variáveis (no caso das mulheres muitas vezes mais pesadas, por questões da segunda jornada) trazem um estresse gigantesco que pode, inclusive, comprometer a saúde física, além da emocional, claro. Reitero que atualmente não é somente um privilégio feminino os fatores emocionais. Homens também são sensíveis e estão tão expostos quanto as mulheres”.

Ponto Urbano: Como flexibilizar o trabalho sem esbarrar nas leis trabalhistas?

Marta Missina:A reforma trabalhista, ainda incipiente, trouxe pequenos movimentos nesse sentido. Devemos considerar que o espírito e a essência da lei trabalhista são guarnecer o funcionário. Ela foi idealizada para protegê-lo e para os tempos atuais algumas coisas não fazem mais sentido. Algumas empresas por falta de estrutura interna e de rotina apropriada fazem por conta própria uma “flexibilização” e não raro pagam uma conta bem salgada em ações trabalhista. Haveria sim ainda oportunidades importantes de flexibilização, contudo o empregador não deve se arriscar numa empreitada como esta sem o resguardo da lei”.

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