Vida UrbanaPOR PONTO URBANOPUBLICADO EM 18/05/2018

Parque Paulista

Desde 2016, é uma realidade: aos domingos e feriados, a Paulista deixa de ser um centro empresarial e financeiro para abrigar pedestres, ciclistas e pessoas em diversas atividades, ocupando todos os espaços livremente, sem a circulação de veículos automotores. Foram dois anos de intensa pressão popular, com liderança do movimento SampaPé e da rede Minha Sampa, até que, em 28 de agosto de 2015, o então prefeito Fernando Haddah iniciou eventos teste e, com 88% de aprovação dos entrevistados, a medida foi finalmente adotada em definitivo.

Apesar de a Ponto Urbano Paulista não abrir no domingo, o parque de pedra no qual a avenida-coração da capital se transforma é uma ótima desculpa para circular pela região e perceber a cidade de outra maneira. Convidamos Rene José Rodrigues Fernandes, pesquisador em políticas públicas da Fundação Getúlio Vargas e secretário da Câmara Temática de Bicicleta, para falar mais sobre o assunto.

 

Ponto Urbano: O que você entende como benefício para os paulistanos e moradores de SP, com essa medida de abrir a avenida Paulista para as pessoas?

 

Renê: Acho que, como eu falo mais do ponto de vista das políticas públicas de ruas abertas, do que do ponto de vista de morador, isto acaba se misturando. Como morador, o que eu vejo é um espaço de lazer, confraternização e consumo aos domingos e feriados, que veio suprir uma necessidade histórica de quem vive na região e de pessoas de toda a cidade. São Paulo tem poucos espaços com tanto acesso, infraestrutura e serviços públicos. Tem ciclovia, ônibus e Metrô, tem boa segurança pública e iluminação. Tudo isto é acompanhado de uma vasta oferta de bares, restaurantes, supermercados, lojas e, principalmente, de muitas opções de entretenimento. A Paulista e seu entorno tem centenas de salas de cinema, teatros, centros culturais, museus, galerias, sem contar artistas de rua que usam a avenida como palco para apresentações. Sem o trânsito de veículos motorizados nos dias da Paulista Aberta, as pessoas conseguem circular com facilidade e segurança entre estes vários lugares, sem contar a diminuição do ruído e da poluição, que torna o ambiente mais agradável. Vale salientar, o comércio local, bares e restaurantes ganharam mais um dia de fluxo aumentado de pessoas e consequentemente um impulso na vitalidade econômica da região. Olhando esta amálgama, a Paulista Aberta é muito mais que um parque. Ela resume o direito de acesso à cidade, que todos merecem.

 

Ponto Urbano: Mesmo com essas ações que democratizam os espaços urbanos, vimos um aumento no número de mortes de ciclistas na cidade de São Paulo. Por que isso acontece?

Rene: O número de ciclistas mortos em São Paulo subiu de forma significativa entre 2016 e 2017. Neste período, a malha cicloviária da cidade não aumentou, mas também não diminui, enquanto nos anos anteriores, tivemos um crescimento constante da malha, que hoje chega a quase 500 KMs, enquanto as mortes caiam. Uma das explicações mais óbvias seria dizer que o número de ciclistas continuou aumentando e malha não. Estes novos ciclistas estariam então expostos a trajetos nos quais não há espaço segregado e isso fez com que as mortes aumentassem. Por este caminho, seria realmente uma deficiência na política para bicicletas que causou este revés. Mas há outro elemento que eu tenho considerado: o paulistano viveu uma última eleição muito polarizada, em grande parte como fruto do que vinha acontecendo no cenário nacional. A saída do governo que havia diminuído velocidades na cidade e implantado as ciclovias, parece ter dado uma sensação de permissividade ao mau motorista. Isto fica evidenciado por radares em grandes avenidas. Só para citar um exemplo, em 2016 um dos radares da Av. dos Bandeiras aplicou 138 mil multas. Em 2017, este número sobe para 168 mil multas, ou seja, um crescimento de aproximadamente 22% no número de infrações por excesso de velocidade. O mote “Acelera”, agora proibido pela justiça, parece ter extravasado para as ruas.

 

Ponto Urbano: Como conscientizar a população sobre a importância da ocupação das ruas por ciclistas e pedestres - uma cidade feita para pessoas?

Rene: São Paulo e outras cidades no Brasil que tiveram crescimento na malha cicloviária nos últimos anos são grandes exemplos de que a mentalidade da população está mudando. Isso fica claro pois, mesmo com a paralisação da expansão da rede de ciclofaixas e ciclovias em São Paulo, o número de viagens por bicicleta não para de crescer. Logo, todo mundo vai ter alguém na família que vai de bicicleta. Isso deixa mais rápida a humanização das cidades. Por outro lado, temos cada vez mais exemplos de fora do país. O modelo do veículo individual motorizado se tornou insustentável. Capitais e grandes cidades mundo afora estão passando a restringir cada vez mais o seu uso e incentivar os modais ativos de locomoção.

 

Ponto Urbano: Como a questão da mobilidade urbana passa pela abertura da Paulista? Acha que isso muda a visão das pessoas sobre esse assunto de alguma maneira?

Rene: Meu vizinho não gosta de mim por todo advocacy que fiz pela abertura da avenida para pedestres aos domingos. Eu moro na primeira paralela à Paulista do lado centro. Nos dias em que ela fica fechada para carros, todo o trânsito no sentido Paraíso – Consolação é desviado para a minha rua. Ele usa carro todos os dias e é pouco provável que vá mudar este hábito a curto prazo. Por outro lado, muita gente que inicialmente não era favorável à abertura da avenida para a mobilidade ativa, agora encontro passeando por lá todos os finais de semana. As pessoas acabam pensando a cidade como locus de democracia, é louvável quando voltam a enxergar as vias públicas como espaço de convívio entre pessoas. Rio de Janeiro, Los Angeles, Bogotá, Cidade do México, entre outras, já tem suas ruas abertas para lazer. Por que São Paulo deveria ser privada?


 

Palavra de quem já esteve lá:

 

Bruna Taiski, jornalista:

“Foi uma experiência muito rica culturalmente. Eu, ‘bicho do mato’ e filha do interior fiquei encantada com a Avenida Paulista naquele dia. Haviam muitas pessoas de diferentes tribos. Era até engraçado, porque uma hora estávamos observando um pocket show de rock e alguns passos depois um pessoal tocava reggae. A vibe era bem saúde, pessoas faziam corrida, passeavam com cachorros, de bicicleta, patins, skate, tudo em harmonia e respeitando um ao outro, sem bagunça. Foi muito gostoso, visitamos barraquinhas de artesanato, conhecemos muitos artistas, com certeza foi uma bagagem cultural maravilhosa”.

 

Camila Pasin, fotógrafa:

“Gosto muito de passear na Paulista domingo porque sinto que tira um pouco o peso da cidade, o cinza e a correria de SP. É muito bacana porque é um espaço público aberto e multicultural. tem muita família, com crianças andando de bicicleta, a cada esquina um rolê diferente (gospel, zumba, skate etc) e todos se respeitando. É uma surpresa a cada esquina! Todos são beneficiados, pois acaba sendo um incentivo aos artistas de rua e maior integração entre os moradores. Pra mim, é como um refúgio, uma nova opção em SP de lazer sem ser bar”.

 

Alan de Faria, jornalista e criador do canal de cultura Ingresse na Arte:

“Antes mesmo de a Paulista ser aberta para público, aos domingos e feriados, eu já era um frequentador assíduo da avenida. Acredito que a decisão de fechá-la para carros nestes dias só potencializou uma das características de que mais gosto da via, que é a de misturar tribos, gêneros, classes sociais. Andar pela Paulista aos domingos ou em feriados é esbarrar em homens, mulheres, transexuais, casais heterossexuais, gays, lésbicas, idosos, crianças, artistas que tocam MPB, bandas que tocam rock. Ainda dá para dançar funk, música black, axé, fazer aula de dança. Assistir a alguma intervenção teatral, assinar alguma reivindicação política. Nesse sentido, acredito que a Paulista aberta para o público mostra que, em um momento tão polarizado na política principalmente, conseguimos, sim, conviver com as diferenças e respeitá-las. O meu desejo, porém, é que isso continue nos outros dias da semana, em outras vias, mesmo quando temos que dividir espaços com carros”.
 

Vanessa Renó, administradora:

“Eu acho simplesmente incrível! É tão democrático e tem uma mistura de pessoas... é acessível a todo mundo, qualquer um pode ir e curtir! E cada vez é diferente, porque as atrações mudam e nunca sabemos o que vamos ver por lá. Eu nunca presenciei qualquer violência ou briga na Paulista. Acho que, como benefícios, deixa a cidade mais viva, democrática (contato com pessoas de diferentes culturas e países em um mesmo lugar - de graça), incentiva a cultura (sempre tem música, dança), incentiva a coletividade (estão todos juntos no mesmo espaço, com muitas diferenças e se respeitando)”.



Depois de tantos depoimentos favoráveis, ficou ainda mais vantajoso virar Membro Ponto Urbano e ter acesso à nossa nova unidade na Avenida Paulista. Saiba mais clicando aqui.